m embebidos em mel e pousavam ricos e
pesados na língua. Mas como Catelyn temera aqueles
sorrisos! A folhamarga manchara os dentes de Masha
de um tom escuro de vermelho e transformara-lhe o
sorriso num horror sangrento.
- Uma estalagem - repetiu Sor Rodrik em tom
melancólico. - Se pudéssemos..., mas não me atrevo a
arriscar. Se desejarmos permanecer desconhecidos,
penso que é melhor procurarmos algum lugar
pequeno... - calou-se quando ouviram sons na
estrada à frente; água chapinhando, o tinir de uma
cota de malha, um relincho. - Cavaleiros - ele a
preveniu, deixando cair a mão sobre o punho da
espada. Mesmo na estrada real não fazia mal nenhum
ser cuidadoso.
Seguiram os sons por uma lenta curva na estrada e
os viram; uma coluna de homens armados que
atravessava ruidosamente um caudaloso curso de
água. Catelyn puxou as rédeas do cavalo para deixá-
los passar. O estandarte transportado pelo cavaleiro
que seguia à frente pendia ensopado e inerte, mas os
guardas usavam mantos de cor índigo e nos ombros
tremulava a águia prateada de Guardamar.
- Mallister - segredou-lhe Sor Rodrik, como se ela
não soubesse. - Minha senhora, é melhor pôr o capuz.
Catelyn não se mexeu. O próprio Lorde Jason
Mallister seguia na coluna, rodeado pelos seus
cavaleiros, com o filho Patrick à seu lado e os
escudeiros logo atrás. Ela sabia que se dirigiam a
Porto Real para o torneio da Mão. Ao longo da
última semana, os viajantes na estrada real tinham
transitado tão densamente como nuvens de moscas;
cavaleiros da guarda e cavaleiros livres, cantores
com suas harpas e tambores, pesadas carroças
carregadas de pilhas de milho ou pipas de mel,
negociantes, artesãos e prostitutas; todos a caminho
do sul.
Estudou Lorde Jason com ousadia. Da última vez
que o vira, ele brincava com o tio no seu banquete de
casamento; os Mallister eram vassalos dos Tully, e
seus presentes tinham sido pródigos. Agora, tinha os
cabelos castanhos salpicados de branco e o tempo
descarnara-lhe o rosto, mas os anos não lhe tinham
tocado no orgulho. Montava como um homem que
nada temia. Catelyn invejava-o por isso; tinha
passado a temer tantas coisas. Ao passar por eles,
Lorde Jason fez uma brusca saudação com a cabeça,
mas não foi mais que a cortesia de um grande senhor
por estranhos encontrados por acaso na estrada. Não
houve nenhum reconhecimento naqueles olhos
intensos, e o filho nem sequer desperdiçou um olhar.
- Ele não a reconheceu - disse depois Sor Rodrik,
surpreso.
- Viu um par de viajantes sujos de lama, molhados e
cansados à beira da estrada. Nunca lhe ocorreria
suspeitar que um de nós seria a filha de seu
suserano. Julgo que estaremos suficientemente
seguros na estalagem, Sor Rodrik.
Era já quase noite quando lá chegaram, no
cruzamento de estradas que ficava a norte da grande
confluência do Tridente, Masha Heddle estava mais
gorda e mais grisalha do que Catelyn recordava,
ainda mascando sua folhamarga, mas lançou-lhes
apenas o mais precipitado dos olhares, sem sequer
uma sugestão de seu sinistro sorriso vermelho.
- Dois quartos no topo das escadas, é tudo o que há
- disse, enquanto mastigava. - Ficam abaixo da torre
sineira, portanto, não perderão refeições, mas há
quem os ache demasiado barulhentos. Não posso
fazer nada. Estamos cheios, ou tão perto disso que
não faz diferença. São esses quartos ou a estrada.
Foram aqueles quartos, poeirentas águas-furtadas de
teto baixo no topo de uma escada estreita e escura.
- Deixem as botas aqui embaixo - disse-lhes Masha
depois de recolher o dinheiro. - O rapaz as limpará.
Não quero as escadas cheias de lama. Atenção ao
sino. Os que chegam tarde às refeições não comem -
não havia sorrisos, e nenhuma menção a bolos doces.
Quando o sino tocou para o jantar, o som foi
ensurdecedor. Catelyn vestira roupas secas. Estava
sentada junto à janela, vendo a chuva a cair. O
vidro era leitoso e cheio de bolhas, e lá fora caía um
crepúsculo úmido. Catelyn apenas conseguia
entrever o lamacento cruzamento onde as duas
grandes estradas se encontravam.
O cruzamento a fez hesitar. Se virassem ali para
oeste, era um caminho fácil até Correrrio. O pai
sempre lhe dera conselhos sábios quando mais
precisava, e ansiava por falar com ele, por preveni-lo
da tempestade que se preparava. Se Winterfell
precisava se preparar para a guerra, o que dizer de
Correrrio, tão mais próximo de Porto Real, com o
poder do Rochedo Casterly erguendo-se a oeste como
uma sombra. Se seu pai fosse mais forte, talvez
tivesse arriscado, mas Hoster Tully passara os
últimos dois anos na cama, e Catelyn não estava
disposta a sobrecarregá-lo agora.
A estrada que seguia para leste era mais selvagem e
perigosa, subindo ao longo de sopés rochosos e
espessas florestas até as Montanhas da Lua,
atravessando passagens elevadas e profundos
desfiladeiros até o Vale de Arryn e os pedregosos
Dedos, que se projetavam para além do Vale. Por
cima deste erguia-se o Ninho da Águia, altaneiro e
inexpugnável, com torres que se erguiam ao céu. Ali,
encontraria a irmã... e, talvez, algu